Jamile Elias inaugurou a RAW, galeria que reúne artistas visuais, recebe eventos e exposições
É nesse desejo de cercar-se de objetos com identidade, autoria e significado que a arte e a produção artesanal vêm conquistando espaço. Comprar arte já não é território exclusivo de colecionadores ou entusiastas. Um público mais jovem e plural passou a frequentar galerias, como a RAW, inaugurada recentemente em Maringá pela artista visual e expografista Jamile Elias.
A RAW reúne diferentes artistas visuais e funciona como um hub para promover e acolher diálogos criativos, exposições, eventos e experiências de vivência com a arte.
Jamile conhece os desafios da profissão e considera fundamental contar com espaços adequados para exibição e venda. “A internet aproximou o artista do público, mas há artistas anônimos no virtual e vender não é tão simples. As pessoas querem ver a obra de perto, observar a textura e a dimensão”.
Segundo ela, o período pós-pandemia reacendeu o interesse pela decoração e ajudou a impulsionar o mercado de arte. A presença marcante de esculturas e telas em eventos como a CasaCor São Paulo é um reflexo dessa valorização. “Com tantas opções de obras de arte disponíveis e com valores acessíveis, não faz sentido comprar uma réplica ou baixar da internet uma imagem. Assim como em outros segmentos, é preciso criar consciência e valorizar o respeito à criação genuína”, defende.
Galerias como a RAW contribuem para que arquitetos, clientes e visitantes tenham acesso a acervos de diferentes artistas brasileiros e estrangeiros. Também oferecem curadoria, aproximando profissionais e consumidores de obras com as quais se identificam.
As vendas, explica Jamile, acontecem a partir daquilo que faz sentido para cada comprador. “Democratizar o acesso não significa diminuir o valor da arte. Pelo contrário, implica fazer com que mais pessoas compreendam o valor de ter uma obra genuína. Temos de disseminar a arte e fazer com que ela integre a nossa cultura”.
Jamile acredita que o futuro passa por uma incorporação mais natural da arte às novas gerações, com maior valorização, como ocorre em países desenvolvidos. Ela espera que mais pessoas descubram que a arte não é apenas para ser admirada em museus ou grandes coleções, mas que pode — e deve — fazer parte do cotidiano, sendo acessível, inclusiva e capaz de tocar as pessoas.
Arte virou profissão

Caroline Galhardo: “existe uma conexão entre a obra e a pessoa que a compra, e é isso que, para mim, constrói valor”
Em 2020, no entanto, Caroline foi convidada para participar de uma exposição em São Paulo, o que mudou sua perspectiva sobre a carreira artística. “Comecei a enxergar a arte não apenas como um complemento à arquitetura, mas como uma profissão”, conta.
Hoje, ela trabalha tanto com obras disponíveis quanto sob encomenda, sempre preservando as séries, linguagens e estilos que caracterizam sua produção. “Preservo a identidade e a coerência do meu trabalho autoral, mas permito que cada obra dialogue com o espaço e com quem a escolheu”.
Boa parte das vendas acontece pelas redes sociais — especialmente pelo Instagram —, mas Caroline também mantém parcerias com galerias e lojas em diferentes regiões do país, participa de exposições e trabalha com arquitetos. O público é majoritariamente feminino e reúne tanto clientes finais quanto escritórios de arquitetura e profissionais que especificam suas obras.
Para Caroline, a arte dentro de casa deixou de ocupar apenas a função de elemento decorativo para se tornar uma maneira de imprimir identidade, personalidade e exclusividade aos ambientes. “Existe uma conexão entre a obra e a pessoa que a compra, e é isso que, para mim, constrói valor”.
Cerca de 90% das pessoas que chegam até seu trabalho já têm uma expectativa sobre o investimento necessário. “O cliente não está simplesmente procurando um objeto dentro de determinada faixa de preço. Ele se identifica com o meu trabalho, a minha estética e com aquilo que a obra representa”.
Esse interesse acompanha uma reação à massificação do consumo. Caroline percebe espaço para o fatto a mano, o feito à mão, e para aquilo que não se repete aos milhares. “A obra de arte não é apenas algo para preencher um espaço. Ela convida à contemplação”.
Do hobby ao negócio

Ana Paula Picazzio e Jéssica Gabriel da Silva, da Associação Arte Livre, que reúne 23 associados
É essa mudança de olhar que Ana Paula Picazzio, presidente da Associação Arte Livre, defende. Criada em 2021, a entidade nasceu para mudar a percepção de que arte e artesanato estão associados ao tempo livre ou à renda complementar.
“O artista e o artesão não são apenas pessoas que sabem fazer algo bonito com as mãos. Eles têm técnica, conhecimento, criatividade, capacidade de inovação e um produto que pode chegar ao mercado com alto valor agregado”, diz Ana Paula.
Além de reunir criadores, a associação estimula uma mentalidade empreendedora. “O artista não precisa escolher entre ser artista e ser empreendedor. Ele pode ser os dois”.
Entre os 23 associados estão profissionais do crochê, costura, cerâmica e macramê, mas também da pintura, madeira, joalheria, miniaturas e até impressão 3D. Técnicas ancestrais convivem com novas tecnologias em um ecossistema criativo.
Transformar esse repertório em fonte de renda, no entanto, exige mais do que talento. É preciso saber para quem vender, calcular custos, formar preço, administrar matéria-prima e tempo, divulgar e comunicar o valor do que se produz. “Quando você não sabe formar preço, pode trabalhar muito e perder dinheiro. Quando não conhece seu público, pode produzir muito e vender pouco”, exemplifica.
Nesse mercado, valor não cabe apenas na matéria-prima. Uma peça artesanal carrega o tempo, as escolhas e até pequenas imperfeições. É justamente essa individualidade que, segundo Ana Paula, ganha espaço diante da padronização: o consumidor quer saber quem fez, como fez e qual é a história por trás daquele objeto.
“Existe também uma dimensão de status. Não necessariamente aquela ostentação tradicional, mas o prazer de possuir algo diferenciado, autoral, exclusivo e que comunica algo sobre quem somos”, pontua.
Para ela, Maringá tem condições de avançar na economia criativa como vetor de desenvolvimento, mas o caminho passa por conectar quem produz, ampliar a capacitação e criar oportunidades para que esses profissionais se desenvolvam. “A Economia Criativa precisa deixar de ser vista como segmento periférico e passar a ser percebida como parte efetiva da economia da cidade”.
Mais do que comprar, fazer

Há quatro anos Sid Baroni Jr. trocou São Paulo por Maringá e abriu um ateliê-escola de cerâmica
O crescimento dessa procura é comemorado por Sid Baroni Jr., proprietário do Ateliê-Escola O Ceramista. O negócio nasceu em 2022, quando ele deixou a carreira no varejo em São Paulo e retornou a Maringá. Formado em Administração e Gastronomia, encontrou na cerâmica uma maneira de reunir gestão, criatividade e o prazer pelo fazer manual.
O ateliê começou com a produção de peças, mas as aulas se tornaram o foco do negócio. Em 2024, a procura foi tamanha que Baroni Jr. precisou mudar para um espaço maior.
Um dos diferenciais está no formato de aulas avulsas, que permite ao aluno escolher quando participar, sem compromisso mensal ou grade fixa. “São pessoas de diferentes idades, profissões e níveis de experiência”, conta.
Na cerâmica, explica Baroni Jr., é preciso se concentrar no material e no que está sendo feito, uma espécie de mergulho no chamado estado de flow, longe das telas e da velocidade do cotidiano.
“Existe um desejo de voltar a fazer coisas com as próprias mãos”, observa. E a atividade oferece justamente isso: começar com um pedaço de argila e, depois de um processo que envolve modelagem, secagem, esmaltação e queimas, chegar à peça final, o que exige tempo e paciência. Uma peça passa por pelo menos duas queimas, e cada ciclo pode manter o forno ligado por cerca de dez horas, seguido de aproximadamente 30 horas de resfriamento.
O Ceramista começou com um forno e hoje conta com três, que atendem às peças dos alunos, às encomendas e à produção do ateliê, além de serem utilizados por outros ceramistas da região. O espaço também promove cursos com profissionais de outras cidades.
Para Baroni Jr., a valorização do artesanal acompanha uma mudança no comportamento do consumidor, mais interessado na origem, no processo e na identidade dos objetos. “O artesanal oferece aquilo que a produção em escala não consegue: tempo, história, identidade e exclusividade”, resume.

