O transporte rodoviário brasileiro passou por uma profunda transformação nas últimas quatro décadas. A tecnologia substituiu os mapas de papel, a logística ganhou inteligência e eficiência, e soluções redefiniram a forma de transportar cargas em um país que depende das estradas para movimentar sua economia.
Parte dessa evolução tem a assinatura do empresário Claudio Adamuccio. Ao lado do irmão e sócio, Valdecir Adamuccio, ele transformou a Transpanorama em uma das maiores transportadoras do país e participou da criação do G10, a segunda maior transportadora de cargas do Brasil. Juntas, as empresas empregam cerca de cinco mil pessoas e operam frota de dois mil conjuntos de caminhões. O empresário também participou da homologação do bitrem, do desenvolvimento do implemento com quarto eixo e da criação do caminhão 8x2, em parceria com a Scania.
Casado, pai de Jéssica e Izabella, Claudio vive um momento em que o olhar já não está voltado apenas para a expansão dos negócios, mas para o desafio de preparar a próxima geração para dar continuidade aos negócios.
“Há 40 anos conduzimos nossos negócios com a mesma convicção: fazer o que é certo, independentemente do tamanho da empresa e do número de colaboradores. Cultura não cresce automaticamente com o faturamento; ela precisa ser cultivada todos os dias”, pontua.
Homenageado com o Prêmio Empresário do Ano 2026, concedido pela Acim, Apras, Sivamar e Fiep, Claudio Adamuccio revisita as decisões que marcaram a carreira, analisa as transformações da logística e compartilha a visão de quem acredita que o futuro das empresas depende menos do tamanho e mais das pessoas:
Como avalia sua trajetória no setor de transportes?
Foi uma trajetória construída com muito trabalho e desafios. Eu e meu irmão e sócio, Valdecir Adamuccio, tomamos decisões importantes em momentos que contribuíram para o crescimento dos negócios. Uma delas foi a mudança da sede da Transpanorama de Mundo Novo/MS para Maringá em 1996. Aqui encontramos um ambiente favorável para fortalecer a empresa e expandir as operações. Outro marco foi a fundação do Grupo G10, em 2000, que transformou concorrentes em parceiros e fortaleceu a representatividade do transporte rodoviário de cargas no Brasil. Também diversificamos a atuação da Transpanorama, ampliando nossa presença em diferentes segmentos, do agronegócio aos líquidos, industrializados, e-commerce e cargas postais. A capacidade de identificar oportunidades e tomar decisões de longo prazo foi determinante para chegarmos aqui.
Quais mudanças redefiniram o transporte rodoviário de cargas?
A tecnologia foi a grande protagonista dessa transformação. Há algumas décadas, trabalhávamos com mapas de papel, e a comunicação dependia de telefones públicos e fichas telefônicas. Hoje, contamos com comunicação instantânea, caminhões equipados com tecnologia embarcada, sistemas avançados de segurança e ferramentas que tornam as operações mais eficientes. Ao mesmo tempo, o Brasil carece de infraestrutura adequada para oferecer melhores condições aos motoristas nas rodovias, o que exige adaptação permanente para garantir segurança, motivação e qualidade de vida aos colaboradores. Além disso, as frequentes mudanças fiscais e regulatórias tornam a previsibilidade do setor um desafio.
Sua filha Izabella está há três anos em um processo estruturado de sucessão. Em que momento o senhor percebeu que sucessão é um processo, e não um evento?
Além da Izabella, temos mais três sucessores em preparação: minha filha Jéssica e meus sobrinhos, Polyany e Guilherme. Trabalhar a sucessão foi uma decisão construída em conjunto com o Valdecir. Depois de analisarmos possibilidades, entendemos que tínhamos a responsabilidade de garantir a continuidade do legado que construímos. Após o comprometimento deles com esse propósito, estudamos cases de sucesso e concluímos que sucessão exige tempo, planejamento e preparação. O maior aprendizado é que contar com uma consultoria especializada faz toda a diferença, porque ajuda a estabelecer regras e governança sólida. É relativamente simples transferir a gestão de uma empresa. O grande desafio é transmitir conhecimento, valores e legado. É um processo que exige paciência e leva pelo menos dez anos para ser consolidado.
A sucessão mudou sua forma de liderar?
Eu e o Valdecir procuramos dar espaço para que os sucessores façam as próprias escolhas e vivam suas experiências, mesmo quando sabemos que existe um caminho mais curto ou uma solução que já conhecemos. O aprendizado faz parte da formação de qualquer líder. Preparar a próxima geração também significa permitir que ela desenvolva autonomia, senso crítico e responsabilidade sobre as decisões.
Inteligência artificial, automação e escassez de motoristas estão redesenhando o transporte. Qual mudança ainda é subestimada, mas deve transformar o setor?
A escassez de motoristas é uma realidade e, em pouco tempo, viveremos um ‘apagão’ desses profissionais. As novas gerações têm demonstrado pouco interesse pela carreira, o que representa um dos maiores desafios do setor. Ao mesmo tempo, a Inteligência Artificial tem enorme potencial para transformar a gestão dos negócios. Os profissionais do transporte precisarão desenvolver competências para utilizar essas ferramentas e extrair o máximo valor delas. Em relação aos veículos autônomos, o Brasil ainda enfrenta limitações de infraestrutura.
O Programa Florescer mostra que a atuação pode ultrapassar os muros da empresa. Qual é a responsabilidade social dos empresários e por que esse compromisso deixou de ser opcional?
Empresas com representatividade têm uma responsabilidade proporcional ao impacto que geram. No Florescer, não pensamos em números, mas em vidas transformadas pela educação, cultura e amor ao próximo. Ao longo de mais de 15 anos, centenas de crianças e adolescentes passaram pelo programa. Alguns trabalham em nossas empresas; outros construíram suas carreiras a partir das oportunidades que tiveram ali. O verdadeiro legado é aquele que permanece na vida das pessoas.
Como recebeu a notícia de ser o homenageado com o prêmio Empresário do Ano?
Recebi a notícia com honra e gratidão. Conheço a seriedade dos critérios que levam à escolha do homenageado, o que torna esse reconhecimento mais especial. Em 2026, a Transpanorama completa 40 anos de história. Esse prêmio é a coroação da trajetória construída ao lado do meu irmão e de milhares de pessoas que caminharam conosco. Este reconhecimento pertence a todos que acreditaram e contribuíram para que chegássemos até aqui.
Se pudesse conversar com o Claudio que iniciava a carreira, que conselho daria? E qual conselho deixa aos empresários que querem construir empresas para atravessar gerações?
Ao jovem Claudio, eu diria para aproveitar os ensinamentos do pai, porque muitas das respostas que buscamos estão nas experiências de quem veio antes de nós. Também diria para continuar acreditando em Deus, na família e nas pessoas como pilares de uma vida e uma carreira de sucesso. Aos empresários, deixo uma mensagem simples: tudo é sobre pessoas. Mantenham o foco, não desistam diante das dificuldades e tenham visão de longo prazo. Os desafios sempre existirão. Quando um problema não tem solução, ele deixa de ser um problema e passa a ser uma situação que precisa ser administrada. O importante é construir um legado que atravesse gerações.

